A última década de quem escreve à mão
A última década de quem escreve à mão
Em algum momento, alguém será o último a escrever à mão por necessidade.
Não por escolha estética.
Não como exercício.
Não como gesto de afeto.
Por necessidade prática, porque era a única forma disponível de registrar uma ideia, organizar uma agenda, deixar um recado.
Essa pessoa provavelmente já nasceu.
Provavelmente está estudando agora.
E não sabe que pertence ao fim de uma linhagem que começou há cerca de cinco mil anos.
Toda tecnologia tem uma última geração.
A última geração de pessoas que escreveu cartas em papel para pessoas que se viam toda semana.
A última geração que decorou números de telefone.
A última geração que usou máquina de escrever em ambiente profissional.
A última geração que comprou enciclopédias em casa.
A última geração que se orientou em uma cidade nova com mapa de papel.
Essas pessoas raramente percebem que são as últimas enquanto ainda estão fazendo a coisa.
Só depois, em retrospecto, descobrem que estavam encerrando um ciclo enquanto pensavam apenas estar resolvendo um problema cotidiano.
A retrospecção tem uma melancolia particular.
Não é tristeza pela perda do objeto.
A enciclopédia foi superada por algo melhor.
O mapa de papel foi superado por algo melhor.
A máquina de escrever foi superada por algo melhor.
A melancolia vem de outro lugar.
Vem da percepção tardia de que junto com o objeto, um modo de vida também desapareceu.
E que esse modo de vida tinha qualidades que não foram transferidas para o substituto.
Algumas dessas qualidades eram pequenas.
A intimidade entre o dedo e a letra.
O cheiro de tinta de máquina de escrever.
A sensação física de virar uma página de papel grosso de mapa.
Outras qualidades eram menos pequenas.
O hábito de pensar antes de escrever porque cada palavra custava esforço material.
A memória de longo prazo que se formava ao decorar telefones.
A paciência ensinada por uma carta que demorava semanas para receber resposta.
O respeito mútuo embutido em conversar olho no olho sem checar o aparelho.
Cada uma dessas qualidades estava ligada à fricção do objeto.
E quando o objeto desapareceu, a fricção desapareceu junto.
A vida ficou mais fluida.
E mais rasa.
Estamos vivendo agora um momento parecido com várias dessas transições, todas ao mesmo tempo.
A última geração que digita com os dedos talvez já tenha nascido.
A última geração que pesquisa em buscadores em vez de conversar com modelos talvez esteja na faculdade agora.
A última geração que aprende programação clássica com livros e tutoriais provavelmente está terminando o ensino médio.
A última geração que distingue conscientemente entre uma imagem real e uma imagem gerada provavelmente já se formou.
E a última geração que escreve por escolha, sabendo que poderia delegar tudo a uma máquina, está sendo testada neste momento.
São muitas últimas gerações simultâneas.
Cada uma encerrando uma forma de viver.
Cada uma seguida por uma geração que verá aquela forma como uma curiosidade museológica.
A questão não é se essas transições são boas ou ruins.
É raro que sejam só uma coisa.
A questão é o que cada um vai fazer com a parte da própria experiência que está prestes a se tornar irrepetível.
Existe alguma virtude em manter, por gesto consciente, algumas das fricções que estão sendo apagadas.
Não como espetáculo de nostalgia.
Não como performance de autenticidade.
Apenas como prática.
Continuar escrevendo à mão em alguns cadernos.
Continuar lendo livros físicos por algum tempo.
Continuar caminhando em alguns trajetos sem mapa.
Continuar conversando longamente com pessoas em vez de delegar a máquina a tarefa de pensar junto.
Essas práticas não vão deter nada.
A transição é maior que qualquer indivíduo.
Mas vão manter, em quem as praticar, uma certa textura cognitiva que está prestes a desaparecer da maioria.
E essa textura, mesmo que pareça arcaica daqui a alguns anos, pode ser exatamente o que distingue, no longo prazo, uma cabeça interessante de uma cabeça eficiente.
Não há contradição entre usar todas as ferramentas novas e preservar algumas práticas antigas.
A contradição existe apenas para quem precisa escolher entre identidades.
Quem está confortável com a própria pode habitar todas as épocas ao mesmo tempo.
E talvez seja exatamente isso o que distinguirá, nas próximas décadas, as pessoas verdadeiramente cultas.
Não as que adotaram tudo.
Não as que recusaram tudo.
As que escolheram, com critério, o que valia a pena continuar fazendo manualmente em uma era em que quase tudo podia ser feito automaticamente.
Essa escolha exige um repertório que está deixando de ser formado.
Quem aprender a fazê-la a tempo vai parecer, no futuro próximo, alguém vindo de outro lugar.
Ou de outro tempo.
Que é mais ou menos a mesma coisa.